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RÁDIO AMICI DEL TALIAN NO AR

terça-feira, 9 de outubro de 2018

La Prima Semensa (A Primeira Semente)

Ivo
Gasparin

1º Capítulo

Olhos paralisados, dedos trêmulos, Carlo ia devorando sofregamente, uma a uma, as
palavras contidas naquela carta. Eram notícias de seu primo Giácomo que há um ano e dois
meses havia partido para a América. ”As colônias aqui são muito boas...É verdade o que dizem
que com poucas videiras fazem muitos barris de vinho. Com 15 vinhas, em 3 anos, se consegue
um barril de vinho... No rio de nossa colônia pode-se montar um moinho e uma serraria... Já
somos mais de 1.400 entre italianos e tiroleses e pensamos até em formar uma nova Itália.
Estamos pensando até em construir um pequeno capitel em homenagem a São Valentim...
Tomem cuidado em Gênova, há muitos ladrões. Chegando em Gênova, tratem de vir o quanto
antes. Providenciem pelas coisas necessárias lá, em Bassano del Grapa. Se puderem,
comprem ferramentas em Gênova para trabalhar a terra: enxadas, foices, serrotes e rodas de
carroça, que o resto nós fazemos aqui. Chegando ao Brasil lembrem desses nomes: Rio Grande
do Sul, Porto Alegre, São Sebastião do Caí e Campo dos Bugres, onde vou esperá-los.”
Tão entretido estava com as notícias da América, que nem percebeu a presença de
Verônica, com a filha Antônia, de dois anos e meio, agarrada em seu colo:
– Varda, nantra carta de Giácomo. (Olha, outra carta de Giácomo)
– De Giácomo?
– Sì, de Giácomo, co le notìssie de la Mérica. (Sim, de Giácomo, com as notícias da América)
Carlo já tinha decidido: não queria repetir a mesma vida do seu falecido pai Honório, uma
vida inteira a serviço dos senhores da terra. A carta de Giácomo era um convite à liberdade.
Faltavam exatamente quarenta e cinco dias para a partida. Iria ele, sua esposa Verônica,
embora estivesse em seu segundo mês de gravidez, a filhinha Antônia e a mãe Assunta.
Em Bassano del Grapa, ficariam seus dois irmãos Fiorindo e Vicenzo, sua irmã Giùlia,
seus primos, seus amigos e seus trinta e dois anos de vida.
Na noite que antecedeu à partida, Carlo não conseguia conciliar o sono. Sua cabeça
fervilhava. Sua mente retorcia-se em meio a mil conjeturas, dúvidas, interrogações. Sabia que
era um salto no escuro, mas precisava ser forte, ter fé.
– Sito mia bon de dormir? – (Não és capaz de dormir?) Perguntou-lhe Verônica, ao perceber
que ele se remexia demasiadamente na cama.
– E el nostro fioleto? (E o nosso filhinho?)
– El nostro fioleto nasserà in Brasile e se ciamarà Próspero. (O nosso filhinho nascerá no Brasil
e se chamará Próspero.)
– Próspero Castelli!... Che bel nome! Nome de segnore... Ma, e se nasse na toseta?
(Próspero Castelli! Que bonito nome! Nome de senhor... Mas e se nasce uma menina?)
– Alora se ciamarà Vitòria. (Então se chamará Vitória.)
– Pròpio!... Vitòria, el nome de la mia nona. Vitòria in Brasile!...(Verdade!... Vitória, o nome da
minha avó. Vitória no Brasil)
Na manhã do dia 23 de janeiro de 1883, acordaram cedo. Um pouco estonteados,
tomaram o seu último café na terra natal e, depois de um derradeiro e angustiante adeus, com
os olhos em pranto, acomodaram-se na carroça puxada por quatro mulas, tomaram a estrada
em direção à ponte do Rio Brenta. Adeus Vila natal, adeus, adeus vales, adeus montes, adeus
igreja de São Valentin onde todos foram batizados.
Depois de um percurso de sete quilômetros, chegaram a Maróstica, seguindo depois por
Sandrigo, penúltima etapa antes de chegarem à cidade de Vicenza. Faltavam ainda 14
quilômetros, seguindo por estradas ao sul, costeando o Rio Bacchilione e assim estaria
terminada a viagem de aproximadamente 35 quilômetros.
Durante todo o percurso, Carlo, que já tinha ido a Vicenza por diversas vezes, ia falando
dos lugares por onde passavam. Antônia era a mais feliz, a mais curiosa, a mais participativa
nas conversas com o pai. Verônica mostrava-se preocupada com o balançar da carroça, pois
levava em seu ventre a esperança de uma nova vida. Assunta, permaneceu quase o tempo todo
calada, talvez imaginando como seria bom se o falecido Firmino estivesse junto dela,

encorajando-a; ele que tantas vezes havia alimentado a esperança de um dia ir à América e ter
sua própria colônia. Seguidamente Assunta repetia uma frase que deixava a todos aflitos e
condoídos:
– E i me fioi Fiorindo e Vicenzo, son secura che no i vederò pì...poareti...Sensa pupà e
sensa mama...(E os meus filhos Fiorindo e Vicenzo, estou certa que não os verei mais... Pobrezinhos... Sem pai
e sem mãe...)
Depois voltava ao seu sofrido silêncio.
Chegaram a Vicenza altas horas da noite.
O carreteiro conduziu-os a uma cocheira de cavalos de um conhecido seu e ali, naquela
estrebaria, acomodaram-se e passaram algumas horas da noite.
Às duas horas da madrugada foram acordados e imediatamente recolheram as bagagens
e deslocaram-se até a estação ferroviária, pois o trem partiria às três horas em direção a
Verona, passando depois por Brescia, pelas planícies da Lombardia, por Milão para, enfim,
chegarem a Gênova, onde encontraram outras famílias vindas de Friul, Treviso, Belluno e de
outras localidades.
Depois de algumas horas, foram transportados em carros, a um lugar chamado
Malassana que fica a uns cinquenta metros do nível do mar com seu grandioso e movimentado
porto. Foram alojados em um amplo salão. Todos apreensivos, perguntavam-se uns aos outros
quanto tempo ficariam ali. Ouviam-se os mais estranhos comentários sobre o futuro.
– Ze belche due mesi che son quà co la me fameia – ( Já são dois meses que estou aqui com a
minha família) dizia um.
– Mi son quà co la me dona, co la nona, con quatro fioi, e le me economie le ze ndrio
fenirse – ( Eu estou aqui com a minha esposa, minha avó, com quatro filhos e as minhas economias estão
acabando) dizia outro.
Mas, talvez pela fé de Carlo, pelas orações da nona Assunta, depois de 28 dias chegou
a notícia:
– Stimana che vien, riva el bastimento. (Na semana que vem chega o navio.)
Carlo, que sempre fora de boa convivência, já havia feito diversos amigos: Francesco
Basso, de Feltre; Caetano Bassani, de Belluno; Clementino Bavaresco e Caetano Barcarollo, de
Cremona, entre outros menos aconchegados, oriundos de Pádova, Treviso, Bergamo, Schio e
de outras localidades. Davam-se ao luxo de jogar cartas na maioria do tempo.
Verônica, por sua vez, vivia de conversas muito íntimas com uma senhora de uns trinta
anos, Paulina Barbieri, que também estava grávida.
Antônia, muito extrovertida e faladeira igual ao pai, já tinha feito diversas amiguinhas e
quase não percebia a penúria pela qual estavam passando.
Assunta era a mais reservada. Vivia mais concentrada em seus pensamentos e só
entabulava alguma conversa com alguma senhora de mais idade que se aproximasse dela.
No dia 5 de março receberam a notícia de que a partida para o Brasil ocorreria no dia 7
e que estivessem preparados. E já no alvorecer desse dia começou um grande burburinho de
pessoas que corriam de um lado para o outro andando em direção ao porto, onde se
encontrava o vapor de nome “Garibaldi”. Crianças choravam, mulheres chamavam pelos filhos.
Muitos, com lágrimas nos olhos, pensavam na incerteza do futuro; quase todos estavam no fim
de seu dinheiro. Alguns mostravam-se alegres, pensando que se aproximava o término de suas
atribulações.
Como uma choca que cuida dos seus pintinhos, Carlo estava sempre atento a tudo.
Andava muito preocupado com Verônica temendo que ela passasse mal. Mas Verônica não se
abalava:
– No stà preocuparte, Carlo, el nostro tatin nasserà in Brasile, belo e com salute.(Não te
preocupes, Carlo, o nosso bebê nascerá no Brasil, bonito e com saúde)
– Sì, gràssie a Dio! E ti, Antônia, resta sempre tacada a la nona. (Sim, graças a Deus. E tu,
Antônia, procura ficar sempre grudada na avó.)
Ao meio dia, com o sol a pino, foram conduzidos para dentro do vapor. Os imigrantes,
aproximadamente uns 1.200, vagueavam na coberta, olhavam-se uns aos outros. Aos poucos,
todos puderam unir-se, família por família, com suas bagagens. Às 15 horas, um agudo apito
anunciou a partida do vapor.

Na primeira tarde tudo transcorreu normalmente, mas, à noite, o mar começou a ficar
revolto. Todos tiverem que descer nos porões do navio. Não podiam ficar no convés porque,
devido às grandes ondas, o navio sacudia muito e era perigoso, pois podiam cair no mar. O furor
do mar pôs tudo em desordem: caixas, baús, objetos de toda a espécie. Um inferno. Ouviam-se
gritos, choros. Alguns, com o terço nas mãos, rezavam. Outros, estáticos de pavor, esperavam
ser tragados pelas ondas. Carlo estava abraçado a todos os seus, rezando, pedindo calma e
dizendo que logo, logo isto passaria. Viam-se por toda a parte, mulheres, crianças e moças
rolarem ao chão no meio de trouxas, gamelas, bolsas, livros de devoção, garrafas.... Naquela
noite, quase todos sofreram de enjoos. Felizmente o dia amanheceu com um céu azul
ensolarado e o mar manso.
Assim se passaram 59 dias entre o céu e o mar. Com dias de sol, dias de chuva, dias de
serenidade e dias de tormentas. A comida era pouca e medida. A água que tinham para tomar
estava numa pipa e todos iam saciar sua sede diretamente na torneira, pois não tinham copo.
Como Antônia era ainda muito pequena e a torneira ficava alta, a vó Assunta ia lá na torneira,
enchia a boca de água e a despejava na boca na menina. Verônica ficava comovida com esse
gesto:
– Varda a nona! No la par mia un ozeleto ndrio darghe de magnar a i fioleti? (Olha a vó,
não parece um passarinho dando de comer aos seus filhotinhos?)
À noite, muitas famílias faziam grupos separados a rezavam o terço. Aos domingos, as
orações eram mais intensas. Cantavam cantos sacros e entoavam até as ladainhas em latim.
Assim passavam os dias: conversando, fazendo planos, jogando cartas. Mas os dias mais
tristes não eram quando ocorriam tempestades, era quando morria alguém. Para Carlo, o dia
mais triste foi o dia em que morreu a irmã de seu amigo inseparável, Francesco Basso, vitimada
pela febre amarela. Colocaram-na dentro de um saco e a jogaram no mar, como faziam com
todos os que ali morriam. O que aconteceu para Verônica foi muito mais marcante. Sua amiga,
Paulina, que estava já de oito meses, teve seu bebê numa noite de turbulência, porém, devido
às más condições, o bebê nasceu morto e, no amanhecer do dia seguinte, depois de uma
cerimônia simples feita pelo capitão, foi jogado ao mar, enrolado num lençol branco.
Chegando ao Rio de Janeiro, tiveram talvez a pior das surpresas; os 1.200 imigrantes
deveriam abandonar o “Garibaldi” e embarcar em outro vapor brasileiro, uma velha carcaça,
denominada “Calderon”, que os levaria ao Rio Grande do Sul, em companhia de outros
imigrantes desembarcados do vapor “Itália”. Se as condições de vida no “Garibaldi” eram ruins,
no “Calderon” tornaram-se muito piores.
Ao meio-dia estavam todos a bordo do novo vapor junto aos que haviam chegado. Quase
todos tiveram que descer aos porões. Ali foram acomodados desordenadamente, sem leitos e
sem repartições para as famílias. Pensavam no incerto futuro e olhavam-se silenciosamente. `
À noite deitavam sobre o duro pavimento, em todas as direções. Às vezes ouvia-se uma
voz de mulher recitando o rosário, outra que procurava aquietar uma criança que as picadas dos
piolhos não deixava dormir, outros, com tocos de vela, perambulavam pelo porão escuro.
– Dio Santo, Carlo, gò tanta paura de perder el nostro tatin! (Santo Deus, Carlo, tenho tanto
medo de perder o nosso bebê!
– Nò, Verônica, nò... Adesso nò! P’amor de Dio!... Coraio che ghe manca poco! (Não,
Verônica, não... Agora não! Pelo amor de Deus!... Coragem que falta pouco!)
Verônica continuava em suas intermináveis e silenciosas orações.
Finalmente, a 11 de maio, o navio entrou na Barra e chegou ao porto da cidade de Rio
Grande. Os imigrantes desembarcaram e foram confinados em um barracão denominado
Casa dos Imigrantes, um barracão sem paredes divisórias, bastante sujo, onde entravam e
saíam, à vontade, as vacas e os cavalos, seja de dia ou de noite. Imediatamente, os imigrantes
procuraram vassouras feitas com ramos de árvores para varrer aquele lugar imundo. Em
seguida, aquelas fragilizadas famílias procuraram um canto para fixar sua provisória morada.
Depois de uma quinzena naquele fétido barracão, em 26 de maio, chegou o aviso de que
deveriam se preparar para partir. Foram embarcados desordenadamente em um outro vapor,
que entrou na Lagoa dos Patos, em direção a Porto Alegre. Como essa Lagoa é de navegação
um tanto difícil pelos seus bancos de areia finíssima, os imigrantes foram obrigados a se
desfazerem de seus pertences mais pesados como máquinas de costura, arados e jogá-los na

água. Seguiram até a embocadura do Rio Guaíba e, depois de aproximadamente 24 horas,
vislumbraram as primeiras casas da Capital. O navio encostou na ponte de desembarque e os
imigrantes foram conduzidos à Casa da Imigração, que apresentava um aspecto bastante
descente, pois tinha repartições para cada família, com camas rústicas.
– Gràssie a Dio semo rivai – (Graças a Deus Chegamos) - disse Carlo para Verônica.
– Te gò dito che’l nostro tatin nasceria in Brasile. Ghe manca solo um mese, par le me
conte. (Eu te disse que o nosso bebê nasceria no Brasil. Falta apenas um mês pelas minhas contas.)
Dias depois, veio a ordem de nova partida. Ordenados em longa fila, atravessaram
algumas pontes pênseis, denominadas de “trapiches”, para chegarem ao vapor que tinha o
nome de “União”. Era um pequeno barco fluvial que possuia rodas nas laterais para facilitar o
transporte.
Por volta das 10 horas, através do Rio Caí, o vapor adentrou por uma região de bosques.
Nas margens via-se somente mato virgem. De vez em quando, via-se uma casinhola construída
de barro e coberta com folhas de palmeiras.
Depois de quase uma centena de quilômetros, às 9 horas do dia seguinte, o “União” deu
o aviso de chegada ao povoado de São Sebastião do Caí e os imigrantes foram conduzidos à
Casa da Imigração, uma verdadeira barraca, sem trincos nas portas e janelas.
No dia seguinte, o empregado da Imigração avisou que daquele ponto em diante, a
viagem até o destino, seria feita em cavalgaduras. Cada cavalgadura, com sela, além de
carregar uma pessoa, levava dois cestos, onde, às vezes, eram colocadas crianças. Por não
haver cavalgaduras suficientes, os homens seguiriam a pé.
– Verônica, monta sù nte che a mula lì che, me par che, la ze mansa. (Verônica, monta
naquela mula ali, que me parece ser mansa.)
– Nò, assa che vae la nona, che la ze intrigada de caminar. (Não, deixa que vá a vó Assunta
que está com dificuldade de caminhar.)
Ao que a nona Assunta imediatamente retrucava:
– P’amor de Dio! Vuto ndar sù pa i monti a piè par perder el tatin? (Pelo amor de Deus! Você
quer subir os morros a pé para perder o bebê?
– E se a mula la se rabalta, no l’è mia pedo? (E se a mula cai, não é pior?)
– A mula no a se rabalta, nò... La ze costumada. (A mula não cai, não... Ela é acostumada.)
Alguns caixões, que vieram da cidade natal, tiveram que ser desmontados para poderem
levar o que cabia nas cavalgaduras. E assim, guiados por um tropeiro moreno, que comandava
uma pequena tropa de burros e mulas, iniciaram a subida da serra. A tropa encaminhou-se por
uma estrada que, pouco a pouco adentrou no mato, transformando-se em estreito trilho cercado
de ervas, arbustos e espinheiros. Verônica, com o peito apertado e com o coração em
frangalhos, pedia a Deus e à Virgem do Bom Parto que a protegessem de todo e qualquer mal.
Os homens, cabisbaixos, ora adiante, ora atrás daquela pequena tropa, seguiam pela subida
molhada e escabrosa, cheia de degraus e buracos feitos por cascos de cavalos.
Carlo, conversando com o homem dos burros e das mulas, ficou sabendo que era o
mesmo tropeiro que, há mais de um ano, havia levado o seu primo Giàcomo até a localidade de
Nova Milano e depois até o Campo dos Bugres.
Quando Verônica ficou sabendo da conversa de Carlo com o tropeiro, não conseguiu
mais conter as lágrimas. O sonho estava para se realizar.
Repentinamente, porém, ouviu-se um grito sufocado. Toda a tropa parou. Carlo,
enlouquecido, jogou-se no pequeno precipício por onde a cavalgadura de Verônica havia
deslizado. Verônica encontrava-se caída, ainda com as pernas prensadas sob o corpo da mula.
Soltava pequenos gritos de dor e orava a Deus. Quando Carlo a alcançou, pediu que mantivesse
a calma que logo, logo ela sairia de lá. Auxiliado por outros homens, aos poucos, conseguiu que
Verônica se desvencilhasse. Colocou-a sentada sobre uma pequena tábua, amarrou umas
cordas feito um balanço, e assim foi retirada do buraco. O tropeiro, vendo a profundidade do
pequeno precipício, com muita frieza, sacou do cinturão uma enorme pistola e acabou com o
sofrimento do animal.
Quando tudo parecia serenado, houve uma pequena correria e um aglomerado de
pessoas procuravam reanimar Verônica que se encontrava desmaiada. Quando a nona Assunta
percebeu que escorria sangue pelas pernas de Verônica, entre soluços e súplicas pediu para

que as pessoas se afastassem e que permanecessem apenas duas mulheres que tivessem
coragem de ajudá-la. Para ela, que havia feito tantos partos na Itália como parteira, tinha
chegado a hora de receber em seus braços o seu primeiro neto. Depois de quase duas horas de
insistência, de luta, de quase desespero, de ansiedade, Verônica acabava de parir o seu sonho:
Próspero havia nascido “in Brasile”. Mas quando Carlo veio correndo para conhecer seu filho e
ao ver a nona Assunta abraçada fortemente em Verônica em pranto descontrolado, teve uma
súbita desconfiança. Por não escutar choro de criança e ao ver, ao lado do corpo de Verônica
um pequeno embrulho envolto em panos, teve a certeza: seu filho não tinha resistido a tantas
tribulações. Paralisado, extasiado diante de tanta desgraça, precisava ser mais forte do que a
fragilizada esposa. Abraçou-se a ela e choraram copiosamente perante o respeitoso silêncio dos
demais.
– Cara, adesso bisogna enteralo, cara...(Querida, agora precisamos enterrá-lo, querida...)
– Nò... enteralo quà nò... (Não, enterrá-lo aqui não...) – Como uma onça felina que defende o
seu filhote, agarrou-se fortemente ao pequeno embrulho. – El me fioleto vegnarà insieme con
mì! (O meu filhinho virá junto comigo!)
Todos ficaram estupefatos olhando aquela comovente cena. O tropeiro, sabendo que
ainda demorariam mais alguns dias para chegarem ao Campo dos Brugres, prontamente tirou
sua capa de couro e ofereceu-a a Carlo para que o filho fosse embrulhado nela e pudessem
continuar a viagem.
Tiveram a sorte que, logo após a chegada ao Barracão dos Imigrantes, apareceu o
primo Giácomo que, volta e meia, vinha ao Campo dos Bugres para ver se Carlo havia
chegado. Foi como se tivesse chegado o socorro a um punhado de náufragos no meio do
oceano. Todos desandaram a chorar, a dar graças a Deus, a dizer coisas desconexas. Só
depois de muitas lágrimas, Giácomo, vendo que Verônica permanecia triste, de cabeça baixa,
segurando em seus braços um pequeno embrulho, perguntou:
– E ti, Verônica, sito mia contenta? (E tu, Verônica, não estás feliz?)
Imediatamente Carlo arrastou-o para um lado e lhe falou tudo o que acontecera.
Depois de eternos minutos de um silêncio comovente, Giácomo disse:
– Alora, ze meio che partimo. (Então é melhor partirmos.)
A colônia destinada à família de Carlo era a do número 10, no Travessão Barra, mas,
falando com o representante do Governo encarregado da distribuição dos lotes, chegaram a um
acordo que era melhor trocar pela colônia de número 25, perto da colônia de Giácomo, que era a
de número 26, no Travessão Leonel.
Seguiram a pé, e depois de um dia e meio de viagem, para cima e para baixo de montes,
caminhando sobre o trilho feito pelos cascos de cavalos, no meio de florestas, ouvindo-se
apenas o ronco dos macacos, o cantar dos pássaros e ruídos estranhos de animais
desconhecidos, chegaram a um exíguo galpão, que era a primeira moradia do local, de
propriedade do primo Giácomo. Ali ficaram por diversos meses até que Carlo construísse sua
própria casa. Mas, a primeira providência a ser tomada, foi abrir uma pequena cova, sob a
guarda de um frondoso pinheiro, para que o pequeno Próspero tivesse, enfim, descanso. Era a
primeira e próspera semente italiana a ser plantada no alto da serra gaúcha, de onde brotaria
tanta prosperidade.

(Obs. Conto baseado em fatos e depoimentos reais dos livros “Entre o passado e o desencanto” e
“Cozì vive i Taliani”, incluindo pequenos textos, ad literam.)

Ivo Gasperin

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