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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Nanetto Pipeta por Ivanir Signorini

Monumento de Nanetto Pipetta em Caxias do Sul


Um personagem do povo ... Literatura



Você já ouviu falar no Naneto Pipeta? Não? Fique tranqüilo que a grande maioria dos brasileiros nem sabem quem é. Você não vai precisar posar de intelectual e fingir que conhece para não parecer que está por fora da cultura. Naneto Pipeta é um personagem popular entre os descendentes e imigrantes vênetos (historicamente confundidos como imigrantes italianos) do sul do Brasil.

Muitas gerações, como a minha, cresceram ouvindo as histórias e aventuras do Naneto Pipeta. Eram histórias contadas para fazer as crianças dormirem, para divertir, para ensinar alguma lição de vida, etc. Lembro de minha infância onde meu pai, minha mãe e minhas tias contavam essas histórias. Mas quando contadas nos programas de rádio os adultos paravam para ouvir e rir. Lembro-me bem da história do terneiro (bezerro) que o Naneto Pipeta amarrou de baixo da casa e, de preguiça de sair fora tratar, abriu um buraco no assoalho da casa. Com o tempo o boi cresceu e colocou as pernas fora pela janela e a cabeça pela porta ... destruindo toda a casa. Moral da história: quem é preguiçoso arranja mais trabalho e perde o que tem (a casa).

O Naneto Pipeta (Nanetto Pipetta) é um personagem fictício criado pelo filho de imigrantes e Frei da Ordem dos Capuchinhos Aquiles Bernardi (1891-1973) em 1924 por ocasião da comemoração dos 50 anos da chegada dos primeiros imigrantes vênetos (“italianos”) ao Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Este personagem rapidamente obteve sucesso e passou a personificar a colonização vêneta (“italiana”) do Sul.

Aquiles Bernardi, na ocasião do meio século de imigração, então vice-diretor do jornal Staffeta Riograndense (no período ditatorial de Getúlio Vargas teve que trocar para o atual nome Correio Riograndense) começou a publicar causos populares (Ciàcore e sfròtole) reunidos no personagem fictício chamado Naneto Pipeta.

Literalmente Naneto Pipeta, em língua talian (o vêneto brasileiro), significa “Manuel Cachimbo”. Naneto obteve o “Pipeta” (cachimbo, pipa) no nome por sempre andar com o cachimbo, sua marca registrada (e a marca dos nossos nônos e bisnônos imigrantes).

Aquiles Bernardi publicou as aventuras do Naneto Pipeta por um ano (entre 23 de janeiro de 1924 e 18 de fevereiro de 1925) e o matou afogado no Rio das Antas em Santa Catarina. Mesmo assim tornou-se um personagem popular e de sucesso que suas histórias não paravam de surgir por todo canto. Embalavam as infâncias, jovens e adultos. Novos contadores as criavam e repassavam oralmente: “Em 1937 a coltânea de crônicas foi reunida em livro, intitulado Vita e Stòria de Nanetto Pipetta – Nassuo in Itália e vegnudo in Mèrica par catare la cucagna, com ilustrações de frei Gentil de Caravaggio. Apesar do sucesso, o Nanetto foi condenado à clandestinidade durante a II Guerra Mundial quando o governo de Getúlio Vargas desenvolvia uma política nacionalista que reprimia estrangeirismos. Em 1956 foi reeditado por Virgínio José Bortolotto, sendo rapidamente esgotado. Hoje já está na sua quarta edição, contabilizando um total de 150 mil exemplares. A história de Nanetto já está presente nas bibliotecas italianas e já foi objeto de vários estudos acadêmicos. Recebeu uma continuação a partir de 1990, escrita por vários autores também em talian, e publicada pelo mesmo jornal.”(Wikipéia)

De tão popular que eram no período da ditadura Getúlio Vargas, quando fechou jornais e invadiam casas recolhendo livros em talian e proibindo falar talian, os textos de Naneto Pipeta eram escondidos como relíquia e símbolo da resistência vêneta. Frei Rovilio Costa conta que inúmeras famílias escondiam o livro de Naneto Pipeta no meio do pão para não serem apreendidas.

Devido a esse sucesso e por ser a personificação da memória e identidade taliana (vêneta), a partir da década de 1970, o Naneta Pipeta ressurge com histórias novas em inúmeros livros em talian e no Correio Riograndense e que são contadas até hoje. Só que agora os autores que escrevem são vários e vão se revezando ao longo dos tempos. Mas não são somente autores específicos, o autor é o povo. Qualquer pessoa que escreve histórias do Naneto Pipeta e manda para o Correio Riograndense as tem publicadas. O jornal mantém a fidelidade a um personagem criado por Aquiles Bernardi mas mantido vivo, mesmo nos períodos de perseguições, pelo povo, pelos colonos, pelos imigrantes, pelos nônos e bisnônos.

Creio que Naneto Pipeta seja um personagem popular e raro da literatura brasileira: representa e personifica o povo da imigração, mas personifica a esperança, o sonho e o futuro digno desses imigrantes. Popular mas também não conhecido pela população brasileira e que ainda faz crianças dormir, sonhar, rir ... Naneto Pipeta é personagem “DO povo.”



Por: Ivanir Signorini, mestre em Filosofia e Teologia, Ouvidor e professor no Departamento de Filosofia do Centro Universitário Assunção - UNIFAI.

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